O prazer acima de tudo?

Os artigos disponíveis foram publicados na revista semana médica, revista da Ordem dos Médicos, jornal Público e jornal Expresso.

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Não é raro os psiquiatras se depararem, nas suas consultas, com pessoas que pedem auxílio sob pretexto de se encontrarem numa situação de grande sofrimento. Depois de ouvirmos atentamente a sua história e de fazermos a avaliação psiquiátrica daquela pessoa, acabamos muitas vezes por não encontrar nenhuma doença mental. Por vezes, o sofrimento psíquico observado é resultado de inúmeros factores externos que escapam completamente ao controlo do psiquiatra e não depende dele a sua solução. Somos assim confrontados diariamente com problemas sociais gravíssimos que ultrapassam em muito a nossa capacidade de ajuda. Nunca mais me esquecerei de ter ouvido o Dr. Gastão Figueira, um dos meus mestres, infelizmente já desaparecido, dizer que, um dia, estando farto de presenciar essas situações e perante a sua impotência para ajudar, resolveu escrever a palavra «Fome» no diagnóstico psiquiátrico da ficha de observação. Tratava-se de uma pessoa cujo problema principal era a miséria e a pobreza em que vivia, e não propriamente um caso psiquiátrico.

Por vezes observamos ainda outro tipo de pessoas que estão a atravessar um período difícil das suas vidas, em resultado de vários «problemas normais» (doença de um familiar, crise conjugal, dificuldades económicas, etc.) e que nos «pedem um comprimido para deixar de chorar». Outras referem apenas que se sentem «aborrecidas». Não propriamente tristes, mas apenas «aborrecidas». Talvez na próxima revisão do sistema de classificação das doenças mentais (DSM V) se venha a criar uma nova categoria de doenças denominada «doenças do aborrecimento»!

Assistimos, assim, à utilização da psiquiatria como um meio de obtenção de prazer ou de eliminação do desconforto psíquico. Isto acontece porque existe por vezes a tentação de utilizar os psicofármacos com o objectivo de fugir ao sofrimento e como forma de alienação, recriando um estado psíquico diferente. Da mesma forma que se recorre à cirurgia estética para melhorar a aparência física, recorre-se a uma espécie de «psiquiatria estética» para corrigir alguns estados psíquicos causadores de incómodo.

Há pessoas que fogem ao sofrimento e procuram obsessivamente o bem-estar. Podemos considerar que esta atitude é uma forma materialista e consumista de obter a felicidade. Procura-se, assim, um bom nível de vida sócio-económico, a ausência de dor física e psíquica e uma fuga a tudo quanto seja problema ou preocupação. Este objectivo encontra-se muito bem traduzido na expressão utilizada pelos jovens «está-se bem»! Facilmente caímos no hedonismo, que assenta a sua doutrina na busca do prazer e no evitamento ou na rejeição da dor, uma vez que o prazer é a essência da felicidade. O discípulo de Sócrates Aristipo de Cirene acrescenta que todos os prazeres são bons, variando apenas a sua intensidade. O prazer verdadeiro é o prazer do presente, uma vez que o do passado já se desvaneceu e o do futuro é incerto. Ainda segundo este filósofo, a virtude de um indivíduo encontra-se associada à capacidade de obter a maior soma possível de prazer.

Mas se a felicidade é a vocação do homem e a sua busca um direito perfeitamente legítimo, nós também sabemos que nesse percurso existem por vezes momentos de tristeza e sofrimento. Torna-se necessário aprender também a aceitá-los como uma parte da nossa vida, já que o sofrimento ajuda-nos a reflectir sobre as coisas, a tomar decisões e a crescer interiormente.

Pedro Afonso

Médico psiquiatra

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