Os artigos disponíveis foram publicados na revista semana médica, revista da Ordem dos Médicos, jornal Público e jornal Expresso.
Numa altura em que o cansaço se acumula, a reforma parece cada vez mais longínqua e as apetecidas férias não chegam, é natural que na penosa deslocação diária para o trabalho, surja com irritação o pensamento: ”Para que faço isto todos os dias?”. Sem o saberem, algumas pessoas estão a sofrer de burnout!
Embora ainda pouco conhecida entre nós, a síndrome de burnout foi descrita em 1974 por Freudenberguer quando observava uma série de manifestações de esgotamento nos terapeutas de uma clínica de toxicodependentes em Nova Iorque. Mais tarde, Maslach e Jackcson fizeram a primeira caracterização desta síndrome, atribuindo-lhe três dimensões (esgotamento emocional, despersonalização e falta de realização profissional). Estes autores criaram ainda uma escala de avaliação (Maslach burnout inventory).
Esta síndrome poderá ser definida como uma reacção emocional crónica caracterizada pela desmotivação, desinteresse, e um mal-estar geral na relação com o trabalho. Este cansaço emocional progride para sentimentos de inadequação e fracasso com quebra do rendimento laboral, conduzindo a um absentismo e negligência. O indivíduo entra num estado de exaustão, uma vez que se esgotaram todos os seus recursos adaptativos face a um ambiente laboral que se revelou hostil. Estamos assim perante uma doença ocupacional que acaba por ser frequentemente ignorada pelos vários responsáveis, atribuindo − por ignorância ou incúria − a origem do desgaste dos funcionários a um problema individual e não organizacional.
Nas pessoas atingidas observa-se uma série de sintomas físicos, psíquicos, emocionais e comportamentais que se apresentam de uma forma gradual e muitas vezes imperceptível. Apesar do stress ter a sua origem no trabalho, esta situação de desgaste extravasa estes limites e acaba também por ter reflexos na vida pessoal, nomeadamente no relacionamento com a família e com os amigos.
O quadro clínico inicia-se habitualmente por uma diminuição da vontade, ânimo ou prazer de ir trabalhar. A falta de realização profissional torna-se constante, originando sentimentos de impotência, inutilidade, fracasso e vazio, afectando a própria auto-estima e o entusiasmo pela vida. A falta de concentração, a irritabilidade e a baixa tolerância à frustração tornam-se frequentes, acabando por provocar conflitos nas relações interpessoais. O desejo de abandonar o trabalho transforma-se num pensamento constante e o absentismo aumenta. Com o tempo podem surgir perturbações depressivas e de ansiedade, manifestações psicossomáticas (cefaleias, fadiga crónica, insónia, alterações gastrointestinais, úlceras gástricas, etc.), dependência e abuso de substâncias (ansiolíticos, hipnóticos, álcool, etc.) e em situações limites pode levar ao suicídio.
Apesar de poder ocorrer em qualquer actividade profissional esta síndrome tem sido observada principalmente em “profissões de ajuda”, cujo contacto interpessoal se revela essencial. Nomeadamente os médicos, enfermeiros, professores, assistentes sociais, bombeiros, administrativos com funções de atendimento ao público, etc. Ou seja, indivíduos cuja actividade profissional é vocacionada para o apoio permanente e directo na resolução de problemas das pessoas. Já no caso concreto dos médicos, destaca-se o facto da síndrome de burnout interferir significativamente na relação médico-doente, prejudicando necessariamente a qualidade assistencial.
Detectaram-se vários factores de risco associados ao desenvolvimento da síndrome de burnout. Do ponto de vista pessoal, os indivíduos que se encontram especialmente em risco são aqueles com um idealismo exaltado, altruístas ou com traços obsessivos, que investem e se dedicam demasiadamente no seu trabalho como único meio de gratificação narcísica (ser amado, ser reconhecido). Já num contexto ambiental, poderemos destacar a existência de trabalho excessivo, monótono ou pouco gratificante. São também de considerar outros aspectos como a falta de resultados imediatos ou uma elevada taxa de fracassos, a presença de conflitos com as chefias, e a interferência significativa do trabalho na vida familiar.
De que forma é que se pode evitar o burnout? O ambiente de trabalho poderá ser melhorado através de algumas medidas simples, tais como: a melhoria do conforto do mobiliário, da iluminação, flexibilizando os horários e implementando programas de formação contínua. Poderá ainda ser estimulada a divisão de responsabilidades e o planeamento do trabalho por objectivos, evitando-se um modelo de organização muito rígido e hierarquizado. Ao mesmo tempo, devem-se desenvolver expectativas realistas e aferi-las regularmente de modo a acautelar sentimentos de frustração relativamente ao trabalho. A partilha com os colegas, amigos e família revela-se fundamental. Por isso, é errado o conceito que os problemas do trabalho ficam à porta de casa, uma vez que ninguém saudável tem “dupla personalidade”!
Um dos aspectos importantes a assimilar é o estabelecimento de limites: aprender a dizer “não” às solicitações excessivas ou a pedidos irrealistas que obriguem a um empenho e um esforço desproporcionados.
As férias devem ser preferencialmente gozadas ao longo do ano e não concentradas apenas num único período, impedindo-se que desta forma haja uma acumulação de desgaste excessivo. É importante que sejam encontradas outras fontes de gratificação fora do local de trabalho, nomeadamente através da prática de desporto ou de outras actividades de lazer.
Finalmente, nunca é demais referir que todos nós temos uma capacidade limitada de suportar o stress associado à nossa profissão; por isso, necessitar de ajuda, não é sinal de incompetência ou de fragilidade, já que ninguém está livre de sofrer de Burnout. E, ao contrário das férias o trabalho nunca acaba!
Pedro Afonso
Médico Psiquiatra
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