Os artigos disponíveis foram publicados na revista semana médica, revista da Ordem dos Médicos, jornal Público e jornal Expresso.
É inegável que o telemóvel veio trazer inúmeros benefícios para toda a gente. Hoje em dia é impensável poder dispensá-lo. Mas, se a sua presença nas nossas vidas é uma realidade é preciso também reflectir sobre a forma como estamos a usá-lo e quais as implicações nas nossas relações interpessoais.
Com a correria do dia-a-dia falta-nos tempo para muita coisa. Queixamo-nos da falta de tempo para ler, para ir ao cinema, para brincarmos com os filhos, para estarmos com a família, etc. O telemóvel surgiu como uma espécie de antídoto para esta falta de tempo. Assim, ao longo do dia fazemos alguns telefonemas para a nossa mulher (ou marido), para os nossos pais, filhos, amigos, etc. Se pararmos um pouco para pensar, são vários os amigos com quem mantemos contacto regular por telemóvel, mas que já não encontramos pessoalmente há vários meses. Muitas vezes a chamada termina com a frase: «temos que nos encontrar um dia destes….». Inventou-se assim um novo tipo de amizade: «A amizade por telemóvel».
Nos dias de hoje prescinde-se cada vez mais da presença física nas relações entre as pessoas e parece haver cada vez mais tolerância social para esta situação. Por falta de tempo já não se visitam, como no passado, os doentes nos hospitais, as crianças que nascem nas maternidades, os amigos que estão doentes em casa ou a atravessar um período difícil das suas vidas, etc. Habitualmente, nestas circunstâncias, optamos por telefonar ou enviar um SMS. Ficamos assim aliviados e de consciência tranquila por termos feito o mínimo por aquele amigo. Racionalizamos as nossas ausências com a falta de tempo, e isso ajuda-nos a diminuir alguma culpabilidade. Deste modo, e sem nos apercebermos, estamos a transformar as nossas relações de amizade, numa espécie de «amizades em estado comatoso», uma vez que estas só se mantêm vivas porque estão ligadas à máquina; ou seja: estão ligadas ao telemóvel.
Todos nós sabemos que a presença física entre amigos se reveste de uma outra dimensão e riqueza. O olhar, os gestos, a expressão do rosto, e a própria postura originam uma maior estimulação sensorial, através dos nossos sentidos, que por sua vez ajudam a uma maior comunicação fortalecendo os laços afectivos. Estes momentos partilhados têm outra profundidade já que ficam gravados na nossa memória com muito maior firmeza do que um simples telefonema. Por exemplo: quem é que se lembra da maior parte dos telefonemas feitos há um ou dois meses atrás? Mesmo proferindo as mesmas palavras de apoio e encorajamento a um amigo que se encontra doente num hospital é completamente diferente fazê-lo através do telemóvel ou pessoalmente. O simples gesto de lhe segurar a mão e de olharmos nos seus olhos com ternura e confiança, dispensa as palavras e não tem comparação com o distanciamento da mensagem ou do telefonema.
Na amizade precisamos de sentir que a outra pessoa está próxima, que sofre connosco quando estamos tristes ou preocupados e que se alegra com a nossa felicidade. Esta intimidade só se consegue com a presença do outro e com a partilha daquilo que talvez seja o nosso maior bem: o nosso tempo.
Pedro Afonso
Médico psiquiatra
Excesso de carga horária é nova forma de escravatura, afirma Pedro Afonso, médico psiquiatra. As chefias trabalham cada vez mais e a carga horária semanal vai além das 48 horas: os problemas estendem-se às famílias e a cultura empresarial precisa de mudar.
Saber maisO “sexting” é a actividade entre adolescentes que consiste em captar e divulgar imagens de si próprios ou de terceiros, através de mensagem de telemóvel ou da internet, com semi-nudez/nudez ou de conteúdo sexual.
Saber mais