A depressão em tempos de crise

Os artigos disponíveis foram publicados na revista semana médica, revista da Ordem dos Médicos, jornal Público e jornal Expresso.

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A “depressão” tem sido usada diversas vezes para caracterizar o estado de espírito da nossa sociedade, neste período de crise. Mas a verdade é que, a avaliar pelos dados obtidos pelas vendas dos antidepressivos, a depressão parece estar a aumentar no nosso país. Atualmente são vendidos diariamente cerca de 20.500 embalagens de antidepressivos, o que revela uma tendência já observada no ano anterior em que a prescrição destes medicamentos aumentou cerca de 7,6%.

São várias as possíveis explicações para este fenómeno: o desemprego, as dificuldades económicas, o aumento dos divórcios, e a solidão, principalmente nos idosos, etc. Além disso, a insegurança que se vive atualmente na nossa sociedade, conduz a um sentimento generalizado de medo. Ou seja, as pessoas andam receosas, inquietas e encontram-se dominadas pela convicção de que algo negativo vai ocorrer nas suas vidas. Evidentemente que este ambiente social de incerteza, de pessimismo, e de provação financeira, acaba por aumentar o risco, para quem já está fragilizado, de vir a sofrer de depressão.

A depressão é uma doença transversal que atinge várias idades, está descrita em todas as classes sociais e em diversas culturas. A prevalência da doença ao longo da vida é cerca de 20% nas mulheres e sensivelmente metade deste valor nos homens. Importa referir que a depressão é uma doença incapacitante e não exprime uma falha de carácter ou preguiça de enfrentar os problemas da vida, como por vezes ainda se ouve dizer. “ Tens que reagir”, “deves sair e divertir-te”, “pára de chorar e põe uma cara alegre”, etc., são palavras habitualmente proferidas por amigos e familiares. Todavia, para o doente, este tipo de comentários, não só pouco ajudam, como ainda podem aumentar o sentimento de impotência e frustração, pois certamente ele seria o primeiro a querer sair desta situação.

Contrariamente ao que acontecia há algumas décadas atrás, noutras crises económicas como aquela que aconteceu no período da grande depressão dos anos 30 atualmente a psiquiatria tem disponível uma série de novos medicamentos (por exemplo, antidepressivos e ansiolíticos). Além disso, a segurança e melhor tolerabilidade dos antidepressivos permitiu que o seu uso se tornasse mais generalizado, podendo ser prescritos a pessoas com depressão, sem que seja necessário, por este motivo, interromper a sua vida profissional. Este aspecto veio de alguma forma quebrar o mito de que os psiquiatras, com as suas medicações, colocavam “as pessoas a dormir”, ficando incapacitados para a vida profissional ou social. Nos últimos tempos, os avanços efectuados na psicofarmacologia vieram ajudar não apenas reduzir o estigma associado à psiquiatria, mas também reduzir o absentismo laboral associado a esta doença, aumentando a probabilidade de sucesso terapêutico.

Mas não se julgue, porém, que a depressão se trata apenas com a prescrição do antidepressivo. A compreensão do doente no seu “todo”, a capacidade de escutar e compreender os seus problemas, juntamente com o necessário apoio psicoterapêutico são fundamentais para o sucesso da recuperação. Ou seja, a primeira atitude do psiquiatra diante do doente com depressão é escutá-lo, acolher o seu sofrimento, e transmitir-lhe esperança, ajudando-o a superar o desânimo e o desalento que muitas vezes toma conta da pessoa.

Uma outra questão importante quando se fala de depressão é distingui-la da tristeza normal. Ora, a tristeza não é doença, faz parte da vida e pode ajudar-nos à mudança, pois ninguém muda se estiver tudo bem. Os momentos de crise e de tristeza acabam por se tornar períodos de reflexão, de crescimento individual, nos quais se hierarquizam prioridades e se procedem a tomadas de decisão que implicam novas escolhas. De resto, o sofrimento também dá profundidade à nossa vida interior, levando-nos a quebrar “a anestesia psíquica” induzida pela rotina, pelo consumo, e por formas de estar na vida excessivamente mecanizadas e superficiais.

Mas afinal quando é que a tristeza passa a ser considerada depressão? A distinção entre ambas não é fácil e depende muito de cada pessoa em concreto. Porém, podemos afirmar que a tristeza deixa de ser normal quando é incompreensível para a pessoa; ou seja a pessoa está triste e não sabe identificar a causa. Por outro lado, a tristeza torna-se patológica se for muito intensa e tiver repercussões em várias áreas da vida pessoal, designadamente se interferir com o trabalho, com a capacidade de concentração, ou tiver consequências negativas nas relações interpessoais, causando isolamento social. Por último, a tristeza torna-se patológica quando se prolonga muito no tempo (o indivíduo passa a maior parte dos dias triste) ou quando dá origem a sintomas físicos, como é o caso da insónia, perda de apetite ou falta de energia para o dia a dia.

Em suma, a depressão continua a ser uma doença com um grande impacto na sociedade, geradora de grande sofrimento e incapacidade. O período difícil que atravessamos leva a que hajam mais pessoas a sofrer desta doença. É preciso, neste momento social difícil onde predomina o medo e a incerteza,  acreditar que o nosso futuro não está fatalmente escrito. A depressão tem tratamento e o mais importante é pedir ajuda a um médico. O apoio psicoterapêutico pode ser também necessário, mas no caso de depressão grave (depressão major), deve-se procurar a ajuda de um psiquiatra. Nesta situação o tratamento farmacológico é mandatório, já que ocorrem alterações fisiológicas importantes no organismo que é necessário tratar. Finalmente, com a ajuda certa, a maioria dos episódios depressivos são superados; ou seja, com o tempo a pessoa recupera as suas capacidades, o humor volta ao seu estado normal e regressa a alegria de viver.

Pedro Afonso

Médico psiquiatra

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